Marcando território
Não ter aulas na UERJ é o esperado, porém pode ser divertido. Hoje, por exemplo, não tive Direito Comercial, mas, em compensação, fiquei conversando com um colega da minha antiga turma que me contou uma das histórias mais inacreditáveis do ano. Dizia ele que outro colega em comum afirma que basta uma mulher sair com ele uma única vez e já é dele. O melhor de tudo, no entanto, é o método: ele urina nos pés dela durante o banho, confirmando a relação de “intimidade”. Sério.
É para rir?
Saí do escritório hoje e passei na Livraria da Travessa para procurar um livro do Anthony Giddens. A idéia não poderia ter sido mais infeliz: acabei no meio de um lançamento de livro, com vinte mil advogados velhos caçando carniça e um saxofonista mala tocando a música do Titanic. Devo merecer.
So not into you
Imaginação fértil é um problema. Para combater, construo as narrativas mais complicadas do universo e tento convencer meu interlocutor de que nasci para ser celibatária, de que só gosto de estrangeiros e de que aprecio qualidades em que normalmente não reparo. Quando não funciona, sou mais cruel do que isso. Can’t you see I’m so not into you? (E, curioso que seja, é o quarto caso consecutivo em que não me interesso nem um pouco em entrar no conto de fadas)
Coming home
Então eu finalmente voltei dos Estados Unidos. Quando as pessoas me perguntam como foi eu simplesmente respondo que foi “produtivo”, mas acho que ainda não consegui avaliar. Eu nunca me senti tão sozinha e desamparada quanto no primeiro dia por lá, em uma residência estudantil estourada, com a fechadura quebrada e sem ter a quem recorrer. Depois tudo mudou, é verdade, mas o pânico e o cansaço de intermediar uma série de mudanças via rádio e em um país estranho prejudicaram de algum modo a experiência.
Fui para lá em busca do prestígio acadêmico que seria apresentar dois artigos na principal conferência de Relações Internacionais do mundo, em busca de um orientador de doutorado, em busca de um inglês perfeito. Posso afirmar que desisti de ser pesquisadora, abri mão da convicção de me dedicar à torre de marfim e que, pelo menos, meu inglês tá bem bacana. Como bônus, aprendi uma série de coisas sobre o mundo: culturas diferentes, contrastes tenebrosos e sede de transformação. Voltei para o Brasil certa da idéia de seguir carreira na administração pública e de utilizar o Direito como apenas mais um suporte no caminho dos meus ideais. Mas eu juro que explico isso melhor posteriormente.
Hoje encontrei na UERJ um antigo amigo do colégio, dos tempos em que todos diziam que eu era cruel e não tinha coração. Pois vejamos: todos os meus misericordiosos ex-colegas de classe hoje se dedicam a ideais egoístas e ironizam a importância de se construir uma sociedade mais equilibrada. Eles não querem apenas ser bem-sucedidos — condição que eu não critico –, mas querem ser os únicos ricos, os únicos brilhantes. E a pérola maior, que me fez prender o vômito: eles, parte da “elite” nacional, dizem “não tolerar” conversar com as “pessoas estúpidas” que fazem o povo brasileiro. Talvez isso signifique que eles não conversam com o próprio espelho…
E eis que essas mesmas pessoas têm feito pouco caso dos meus valores e objetivos. Não é que eu saiba o tempo todo quem eu sou e aquilo que pretendo ser, mas tenho feito meu máximo para ser justa, honesta e coerente. Não condeno quem queira enriquecer, até por ser uma defensora bastante razoável do sistema capitalista diante das opções existentes. Condeno, porém, que se abandonem a ética e a compaixão em nome de papéis e de contas bancárias. Se eu estou sendo ingênua em achar que posso contribuir de algum modo para tornar o nosso mundo menos insuportável para alguém, paciência. Pode parecer absurdo, mas meu ego não é tão importante quanto a minha consciência e, tendo percebido isso, estou confortável pela primeira vez na vida.
Como tem dito um amigo meu, uma hora chegamos ao ponto de esperar pelo pior e não se incomodar minimamente com o que aparece. Acho que estou por aí, pensando apenas em como posso ser útil. Talvez seja mesmo uma forma de egoísmo, mas um egoísmo saudável, no qual nossa obsessão é satisfazer a preocupação de fazer algo por nossos arredores. Acredito não estar errada.
A omelete favorita de Monica Lewinsky

Folia de Momo?
Apesar de gostar (muito) de samba, Carnaval continua não sendo a minha. Negando todas as fotografias com fantasias de baiana e de odalisca, cresci alheia à folia de Momo e incomodada pelas multidões alcoolizadas. Também realizo anualmente um campeonato sem fim determinado para saber quantos minutos demoro até desistir dos desfiles das escolas do Rio na TV. Este ano, para não fugir à tendência, diminuí os números: enjoei logo na primeira escola, a São Clemente. Acho que não tenho mais jeito…
Pet shops
Tenho medo do que vocês possam responder, mas tenho cara de dona de pet shop? Entraram aqui perguntando quanto custa um peixe beta. E eu que não sabia que a punição por deixar o meu próprio peixe morrer por superalimentação em 1998 seria tão grande…
(E é claro que a cada novo post reclamando das buscas eu acabo apenas atraindo novas visitas. A lei de Google é a lei de Deus. Ou não.)
Desmentindo a TRIP
Curtindo minha hiperatividade infernal, estou escutando música, jogando papéis fora, conversando no MSN e lendo matérias antigas da TPM e da TRIP. Eis, no entanto, que uma menção sobre a lanchonete Estadão, um clássico paulistano, interrompe meu ritmo. Diz:
Zuza está seguro de que, do seu jeito, mantém a ordem de um lugar caótico. Ninguém sai sem pagar, ninguém tumultua, ninguém recebe sanduíche errado.
Voltemos um pouco. Em dezembro de 2005, uma época que já parece antigamente, estive em São Paulo com um pessoal da UERJ para participar de um desses eventos nerds de que alunos de Direito e de Relações Internacionais gostam: uma simulação de ONU — não foi a primeira nem a última, a despeito dos clamores por poupança que vinham da minha conta corrente. Naquela ocasião, falidos e hospedados em uma região pouco aprazível para passeios noturnos, nos deixamos levar pelo espírito da proximidade e fizemos diversas refeições no Estadão. E, justamente dessa “rotina paulistana”, segue o meu reparo à matéria da TRIP: todos os meus pedidos foram entregues com engano.
Será que o erro é deles ou só Murphy explica?
Óleo de peroba (reloaded)
Eu juro que gostaria de tornar este blog um exemplo de seriedade, mas a minha vida não acompanha esse objetivo e não tenho como detê-la. Lembram do rapaz sobre o qual falei há alguns posts? Um amigo que confessou estar interessado em mim há muito tempo? Então: como a palhaçada nunca é suficiente, ele tem namorada e fica me dando indiretas tão ridículas que ativam toda a minha verborragia. Exemplos:
Amigo diz:
Por que não me levou (à festa de formatura)?
Eu digo:
Sábado é dia em que homem sai com namorada. Eu lá ia te chamar para alguma coisa sábado?
(…)
Eu digo:
Não tenho vantagem nenhuma em pegar homem com namorada. Só posso apanhar, morrer ou arder no inferno.
(…)
Eu digo:
Sério, se houver inferno, o inferno é o Clube do Bolinha.
Para Francisco
Este blog é tão lindo, tão lindo, que me fez chorar e sorrir ao mesmo tempo. Estou ouvindo Billie em homenagem à terrível inevitabilidade das coisas e à capacidade, que alguns têm, de se recriarem. Depois de tudo, apesar de tudo e com um amor tão grande que comove.
M. responde: Peixes Beta
Entraram neste humilde blog ontem questionando o que irritaria um peixe beta (”o que irrita um peixe beta?” é o termo correto). Não sugiro (porque é maldade com o pobre animal), mas esclareço que basta colocar um espelho na frente do aquário, de modo que o peixe consiga ver sua imagem refletida. Acredito, porém, que não custa nada incluir uma foto do dono, que, pelo nível raso de sensibilidade, não deve ser muito diferente de alguma coisa bem assustadora e perturbadora.
“Não existe racismo no Brasil”
Claro que não, né? Por isso tivemos que afirmar que é crime na nossa legislação. Por isso ainda separamos “áreas de serviço” e “áreas sociais”. Por isso ainda identificamos bandidos pela cor da pele. E, claro, por isso ainda acontece este tipo de coisa diariamente.
A vida menos dois terços
A partir da mudança que começou ontem, contarei onze meses para o choque final, qual seja a saída em definitivo de meu irmão, rumo à vida de homem casado. Não sei perfeitamente o que será deste novo endereço, que se pretende permanente ao mesmo tempo em que está sujeito às intempéries do meu futuro profissional próximo. De Porto Alegre a Palo Alto, de Brasília a York, tudo poderá acontecer deste ano em diante.
Sabendo disso, iniciei um exercício de desapego e abandonei dois terços da minha memória em papel: foram livros, cadernos, diários de outras épocas. Restaram os títulos fundamentais, minha adorada literatura infantil e vestígios de períodos variados (alguns trabalhos de colégio, fotos, partituras dos tempos da flauta doce). Guardei a ”Pais e Filhos” do meu mês de nascimento, o primeiro recado de minha avó, um registro da minha formatura em língua inglesa. Mantive com carinho o “Alfabeto dos Pingos”, obra primeira do meu aprendizado de leitura (depois, é verdade, de uma notícia de jornal, naquele longínquo 1991). Também deixei mensagens de antigos professores, redações elogiadas da época do colégio e um manual de brincadeiras para crianças.
Curiosamente escutando Jorge Ben e Tim Maia, ambos parte da trilha sonora dos meus primeiros anos, consegui entrar em contato com uma parte de mim mesma com a qual não me confrontava havia muitos anos. Lembrei dos saltos que meu irmão e eu dávamos ao som dos Paralamas em algum lugar de 1995 e da felicidade que eu tive ao ganhar uma assinatura das revistinhas de Maurício de Sousa. Recordei uma viagem de um mês que meu pai fez para os Estados Unidos, da qual ele retornou dez quilos mais magro, quando já parecia que ele não voltaria jamais. Me dei conta que houve uma longa época em que minha relação com minha mãe não era tão delicada. De fato, ela passou por muitas coisas por que eu mesma não gostaria de passar, mas às vezes desejo tão-somente, egoísta que sou, que possamos em definitivo deixar de pisar ovos.
Quando nos voltamos para o passado corremos o risco de regredir ou de nos deprimir, porém não consigo parar de desejar que algum dia retomemos aquela rotina em que era possível simplesmente sentar e rir da minha incapacidade completa de desenhar ou de alguma história doida que eu havia escrito numa tarde de diversão. Por algum motivo, no entanto, minha vida tem insistido em estar subtraída de dois terços e não há papéis que possam cobrir o vazio.
(Novamente, perdão pelo desabafo)
Gerações
Que atribuam ao clichê máximo do conflito de gerações: preciso encontrar meio (rápido) de não mais depender dos meus pais. Não moro com nenhum deles há anos, mas não consigo conviver com as crises dramáticas da minha mãe, aquela que sente ciúmes dos meus amigos, tampouco tenho vontade de permanecer sendo sustentada pelo meu pai.
Estou cansada de parecer um peso morto quando não o sou. Estou esgotada diante de toda essa pressão emocional que me é aplicada diariamente há 20 anos e piorou desde a separação. É nojento: eles se fazem de amigos, conversam todos os dias e falam mal um do outro em qualquer oportunidade. Contrapõem qualquer reclamação minha afirmando que tenho direito a todo o conforto material. Será impossível perceber que eu só quero paz? Sou tomada como inútil, insuportável e incômoda no “seio familiar”, ao mesmo tempo em que sou o “orgulho” que eles adoram elogiar mundo afora. Quem agüenta toda essa contradição?
Não me entendam mal: gosto muito dos meus pais, porém sinto ser impossível manter um relacionamento normal com eles sem ter total controle sobre o meu nariz. Quero ter abertura para dizer o que eu realmente acho, sem esperar retaliações de toda espécie. Quero apenas ter espaço para ser eu mesma, sem precisar forçar simpatia ou me adequar a critérios absurdos. Minha mãe adora fazer com que eu pareça o pior ser humano do mundo, alguém que “nem mesmo consegue manter um namoro”. Sob a falácia de uma capa de “carinho”, ela gosta de me apunhalar com esses comentários que não se fazem para e sobre ninguém — em especial a respeito do maior trauma de uma pessoa próxima.
Bom, desculpem o desabafo.